Estas semanas tenho andado nos Cuidados Continuados.
Fazer Visitas Domiciliárias deixam-me deprimida. Andar sozinha pelas ruas, de porta em porta, debaixo de um sol escaldante ou de uma chuva chata, sem saber o que vai aparecer depois de cada porta... E, nestas últimas semanas, atrás de cada porta tem aparecido mais coisas desagradáveis do que agradáveis.
Pessoas idosas sozinhas, muitas delas (praticamente) abandonadas...
Pessoas rodeadas por fotografias nas paredes, nos móveis, a preto e branco ou em tons sépia, de quando eram jovens ou dos filhos (quando eram bem mais novos).
Mas, olhando para a pessoa que temos à nossa frente, vemos uma pessoa que já viveu muito, que tem muito para contar, para ensinar, para falar, sentada num cadeirão onde provavelmente passa dia e noite porque tem muita dificuldade em se levantar e dar uns passos até à cama sem ajuda. Rodeada de comida e restos, lixo, lenços frescos e usados, completamente "acampada" no cadeirão, às vezes em frente a uma televisão que acaba por ser a sua companheira mais fiel.
Ao entrar pela casa destas pessoas, mesmo sendo uma completa desconhecida, basta saberem que sou enfermeira, que lá vou estar durante os 30 minutos que preciso para fazer o tratamento, para me sorrirem e me tratarem como alguém que recebem em suas casas há muito tempo. Custa sair de casas assim passados 30 minutos e dexá-los de novo entregues ao seu silêncio, à sua solidão... a perguntarem "Quando volta cá menina?"
Depois há aqueles que estão acamados, com feridas e, mesmo vivendo com os seus familiares, ao olhá-los nos olhos vejo tanta solidão como a pessoa da casa ao lado que vive acampada no cadeirão.
Mas, tal como a pessoa da casa ao lado quando nos vê entrar sorri e começa a desabafar o que aconteceu naquela semana ou numa semana qualquer há uns anos atrás, também estes, que muitas vezes não falam, mas olham para nós com uns olhos que dizem mais do que muitas palavras e nos agarram a mão ou mal os tocamos nos fazem carícias e dão um ar de riso...
Depois há os que vivem com os familiares, que fazem de tudo para que a pessoa de quem cuidam tenha tudo, mas não consegue fazer mais. Não consegue melhorar as condições das casas em que vivem, não podem fazer com que as feridas melhorem, não conseguem ter condições económicas para prestar os cuidados que muitas vezes desejam... E mesmo assim, tentam esforçar-se por conseguir ter o material que deveriamos ser nós a levar e, muitas vezes, lhes dizemos "acabaram as ligaduras" ou "hoje não temos o produto que tem sido usado na ferida" e acabamos por fazer um tratamento desenrascando com o pouco material que temos. Nestes casos, vem o marido/esposa ou o/a filho/a acompanhar-nos à porta e ficamos mais uns minutos a falar, a ouvir as suas preocupações e perguntam-nos quando lá voltamos.
Não é fácil virar as costas no fim de cada tratamento feito, tentando dizer que não posso ficar mais tempo porque tenho mais 6 ou 7 pessoas para fazer VD nas horas seguintes e fechar a porta deixando as pessoas de novo entregues a si próprias...
Estas VD's deixam-me deprimida, frustrada por não poder fazer mais qualquer coisa, por não poder estar um bocadinho mais de tempo com cada uma delas.
Estas VD's deixam-me completamente exausta ao fim do dia. Deprimida. Só.
Caíste no mundo real, que nos deprime por vezes, que nos anima algumas outras...
ResponderEliminarTudo ver e nada poder fazer...ainda por cima mal paga.~
Não há nada como ser enf Veterinário, é-se técnico superior e ganha-se como tal.
És Enfermeira e mais nada.
Bjinhos***
Na minha opinião devia haver um pouco mais de "conto de fadas" na vida de cada pessoa, o mundo real deprime... Mas também tem a parte que anima: ouvir dizer "a menina é muito boa enfermeira, espero que seja a menina a vir cá da próxima vez" ou "a menina vai ser uma óptima enfermeira, vai ter um grande futuro" sabem muito bem ouvir, enche-nos o peito.
ResponderEliminarNesta parte de ser Enfermeira vou guardando as coisas boas. As más só nos tornam melhores pessoas, melhores Enfermeiros, certo?
***Bjo